Toda vez que lembro, eu choro. O hoje é lindo, maravilhoso, mas o ontem foi muito difícil. Foi triste em alguns momentos. Não todos.
O Raphinha, desde um ano e pouco ou dois, já brincava muito com bola. Adorava andar "fardado". Às vezes tinha que brigar porque, se deixasse, era sempre calção de futebol, o meião até o joelho, igual ao que ele faz hoje. Camisetão grande, sabe? Era uma briga para fazer trocar a roupa.
O acompanho desde criança, moleque, nos jogos de várzea, nos campeonatos ali da cidade. Depois fomos a outros estados ver os campeonatos dele. Eu sempre escutava isso em casa: "Ele tem jeito". Meu marido sempre disse: "Se ele não soubesse chutar uma bola, eu não deixaria ele frequentar escolinhas de futebol, clubes e tal. Eu colocaria outra coisa na cabeça dele. Mas não, ele tem potencial".
Passou por um clube, por outro e, daqui a pouco, ele iria para fora do país. Então, viajamos para ele fazer a dupla cidadania e, de lá, ficaria fora do Brasil. Ele seguiu com seu pai e eu voltei para casa sem o meu filho. Cara, acho que aí entendi: está acontecendo.
Ele já tinha ficado um período fora fazendo testes, o que também foi uma tortura pra mim. Quando ele passou num teste em São Paulo, teve que voltar para casa, arrumar as coisas e sair. Eu estava abrindo a porta da minha casa para ele ir para o mundo. Aí me deu um desespero. Eu chorava, chorava e perguntava: tem certeza? Não está com medo? Ele: "Estou, mas é o que eu quero".
Eu fui criada com os filhos embaixo do braço, ditando regras, orientando, puxando orelha. Imagina puxar orelha à distância? Não existe. Então a gente teve que orientar muito, conversar muito. E tinha que estar sempre bem. Eu chorando do outro lado do telefone. Era muito doido porque, em datas comemorativas, às vezes a gente não tinha como trazer o Raphinha. E eu dizia para meu marido: dá um jeito, eu quero meu filho aqui no Dia das Mães, na Páscoa. Eu quero.
Nunca vou esquecer daquele Ano Novo. Liguei para felicitar, a gente aqui no meio da família, aquela gritaria. Liguei, ele atendeu.
Onde você está? Na minha cabeça, estava numa ceia, comemorando com os amigos, adultos juntos. Ele me disse: em cima do telhado.
Como assim? "Vendo os fogos", ele falou.
E os coordenadores? "Mãe, eles têm família. Fizeram a comemoração com a gente, mas foram embora e agora eu não tenho o que fazer. Estou com os colegas que moram longe, então ficamos aqui".
Acabou meu Réveillon.
Às vezes, eu procuro esquecer muita coisa porque dói ainda, sabe? Parece que foi ontem. Dói muito. E aí, às vezes, eu fico pensando: será que eu fiz certo? Hoje eu sei que foi a melhor coisa que fiz. Mas, naqueles momentos, parei para pensar: esse menino não tem sofrimento? Falta o ar. Então assim, quando tu para pra pensar no hoje...
Mas eu só sei aquilo que eu perguntei, porque não estava no dia a dia com ele. Não sei o que ele passou de verdade. Não sei quantas vezes ele chorou. Ele só não passava fome e nem frio, porque a gente estava sempre de olho nele. E, graças a Deus, tiveram pessoas boas no caminho dele. Encontrou famílias em São Paulo, em Santa Catarina, depois em Portugal, na França, mesmo na Inglaterra.
Ele casou também, então nunca ficou desamparado, mas, por muitos momentos, ele passou sozinho. Hoje todo mundo olha para o belo, para o lindo, para o financeiro, mas ninguém sabe o que a gente passou. Quando eu falo com esse olhar de mãe, é triste, sabe? Porque tu joga o seu bem mais precioso para os leões, e os leões não têm medo de atacar.
Então assim, ele saiu muito cedo de casa, né? E teve que se virar. Teve o nosso apoio, mas ficou muito tempo sozinho. Podia fazer o que bem entendesse. Conversando agora, adultos, ele de vez em quando fala 'ah, eu fiz tal coisa'. Conversava muito em casa com meu marido: não dá para ficar ralhando com ele por telefone, porque, ao invés de a gente trazer ele pra nós, a gente vai afastar. Então a gente tem que conversar, orientar. Eu me rasgava toda, chorava quando ele dizia que estava bem. Aí a voz dele não estava, né? Então assim, foi bem complicado.
Eu trabalhava como CLT. Então tinha que pedir dispensa para chefe. Não é toda chefe que acolhe, né? Eu precisei e, graças a Deus, as minhas foram maravilhosas. Desde o início da carreira dele, quando precisei ir a São Paulo, ficar dez dias, 15; para Santa Catarina, ficar um pouquinho afastada. No início, também em Portugal, precisei ficar porque é longe, tinha que ficar no mínimo 15 dias. Então elas me davam esse tempo. Foram também essenciais na minha vida e conseguiram me dar esse suporte, e eu dar o suporte para o meu filho.
E assim foi para Guimarães, depois em Lisboa. E aí França... Até que veio a Seleção.
Minha nora e eu estávamos em umas lojas e não pegava sinal dentro. Quando eu saio pra rua, o meu telefone começa: plim, plim, plim, plim, plim. O que é isso? As pessoas estão malucas, o que houve? Uma comadre insiste em falar comigo.
"Tu não tá vendo a TV?".
O que tem na TV? "A convocação".
E o que tem? "O Raphinha foi convocado".
Para de mentir pra mim. Daí ela: "É sério!".
Larguei as compras, comecei a ficar nervosa. Minha nora começou a ligar pra ele. Porque parecia assim: ele acreditava no seu potencial, mas será que era tudo isso para chamarem?
Ele não sabia se chorava ou se ria. Ele ficava nos olhando e a gente chorando abraçados no meio da rua. Uma gritaria. Olha, foi inacreditável.
Ali, eu soube que tudo valeu a pena. Cada sacrifício, cada lágrima, cada esforço, cada dia, cada noite sem dormir. Cada dia cansada, sabe? É o sonho de todo moleque, né? Eu sempre fui fã da Seleção Brasileira, eu sempre vi os jogos, desde criança. Então imagina, eu via Zico, depois eu vi Romário, depois Ronaldinho, Rivaldo... E a gente brincava de o nome dele começar com R também. Olha que legal, né?
Tenho vários vídeos dele falando com a galera, tirando foto. Eu abaixo o vidro do carro, falo com as pessoas, tiro foto, registro ele dando autógrafo. "Mãe, chega". Eu disse a ele: tu não tá entendendo, é tão bonitinho. Hoje posso dizer que caiu a ficha, mas até um tempo atrás, um ano, dois, eu não tinha noção mesmo. Achava aquilo lindo, porque era com o meu filho.
Acho que só fui ter noção mesmo, quando fui para a Copa do Mundo. Aí sim: a gente está dentro. Cara, que loucura! Eu vi o Taffarel, gente. Eu encontrei o Neymar, vi o Casemiro. E outros que jogaram Copas anteriores também. Meu Deus… meu filho está ali no meio deles. Que loucura!
Ele. Nunca. Desistiu. Sempre foi disciplinado. Acorda cedo, entra num balde de gelo, treina quantas horas for preciso. Sempre foi assim. Então, quando vem a Seleção pra ele... Caraca! O que que tu vai dizer pra ele, né?
Parabéns, parabéns, parabéns!
Eu te amo, te amo, te amo!
Força, força, força! Continua acreditando. Porque parecia impossível.
