OPINIÃO: Ancelotti faz convocação italiana na defesa e brasileira no ataque para uma Copa quente e festiva

A grande novidade do Brasil na Copa do Mundo de 2026 não será nem Neymar, nem Weverton, nem Danilo, nem Rayan... Será um treinador italiano no comando. E Carlo Ancelotti, um dos técnicos mais vitoriosos da história do futebol, fez uma convocação com nove jogadores com passagem pelo Calcio, oito deles no sistema defensivo, sendo que o meio-campista Paquetá, que já foi do Milan, pode atuar como volante. O Mister já disse em uma coletiva de imprensa após os seus três primeiros jogos na seleção que tinha muito orgulho da defesa que ficou sem ser vazada nessas partidas: "Sou italiano", afirmou ele com sorriso sutil, ressaltando que "a equipe não tomou gol porque todos trabalharam bem atrás". Ancelotti entende e fala que, para vencer uma competição de alto nível, uma defesa consistente e um time equilibrado são necessários. "Eu acho que temos uma responsabilidade comum como equipe, todos têm que se doar, colocar as próprias qualidades só para uma coisa: ajudar a seleção a ganhar a Copa. Eu não peço outra coisa. Não quero estrelas, quero jogadores disponíveis para ajudar a equipe a ganhar os jogos", reforçou o italiano, na coletiva no Museu do Amanhã.

Alisson, Ibañez, Marquinhos e Wesley (Roma), Bremer, Danilo e Alex Sandro (Juventus) e Douglas Santos (Udinese) jogam ou jogaram na Serie A italiana e integram a defesa do Brasil para este Mundial na América do Norte. E, mesmo com a crise dos últimos anos no Calcio, a Itália continua sendo vista como a pátria da defesa. Como sabidamente não contamos com laterais do mais alto nível mundial, as referências e unanimidades que o Brasil já teve nessa posição, tanto pela direita quanto pela esquerda, fica mais seguro chamar defensores com experiência italiana, mais firmes na marcação, alguns sabendo jogar tanto na lateral quanto na zaga (casos do agora contestado Danilo, do Flamengo, e de Ibañez). Wesley tem atuado como ala na Roma e figura como opção para um jogo mais ofensivo, uma exceção que não sei se vingará como titular de Ancelotti, talvez seja explorado mais em algumas situações mais extremas na Copa do Mundo. Pouca gente entendeu quando Danilo, reserva no rubro-negro carioca, foi confirmado na Copa por Ancelotti com bastante antecedência. Basicamente, o técnico disse que gosta dele e pronto. Isso diz muito sobre como pensa o técnico que trabalhou em cinco clubes italianos diferentes e que foi auxiliar de Arrigo Sacchi na Copa de 1994, quando a Squadra Azzurra foi vice naquela final contra o Brasil nos Estados Unidos, mesmo palco de agora.

Se atrás Ancelotti pensou como um legítimo italiano, na parte ofensiva ele se rendeu à magia brasileira, ao que ainda temos de drible, de ousadia, de velocidade e de habilidade. A convocação de Neymar passa muito pelo talento do melhor jogador que o Brasil produziu nos últimos 20 anos, mesmo estando longe de sua melhor forma e nível. Sem o craque Estêvão, lesionado, ganharam força no grupo Luiz Henrique (potencial titular), Endrick (resolve nos minutos finais) e Rayan (personalidade até na chegada à Premier League), atacantes que gostam do um-contra-um, que mostram coragem para ir para cima dos adversários. Gabriel Martinelli também é jogador para transição rápida. Tanto Raphinha quanto Vinicius Jr. podem atuar tanto pelos lados como pelo meio. Ancelotti, aliás, já disse que conta com Neymar centralizado, o que tem uma lógica: assim ele não precisará ficar marcando lateral ou correndo tanto para trás, poderá se conectar mais facilmente com os outros bons companheiros de frente. O ataque ainda tem como homens mais de área e referência Matheus Cunha e Igor Thiago, são opções com mais imposição física e força no jogo aéreo. Matheus Cunha circula mais que o centroavante do Brentford, mas esse também tem números grandiosos em marcação alta, rouba muita bola dos defensores, ajuda bem na marcação, o que não o impediu de virar o maior artilheiro brasileiro em uma edição da badalada Premier League (22 gols até a penúltima rodada, quatro tentos a menos apenas que o "cometa" Haaland).

Casemiro certamente foi a maior certeza de Carlo Ancelotti quando ele virou técnico da Seleção Brasileira, claro que pelo conhecimento que tinha dele da época de Real Madrid. Aliás são cinco atletas entre os 26 convocados com passagem pelo gigante clube espanhol onde Ancelotti tanto venceu: Casemiro, Danilo, Endrick, Fabinho e Vini Jr. Como quase todos os treinadores, o italiano com as mais famosas sobrancelhas tem seus "queridinhos". Casemiro e Danilo (o defensor) estão entre os preferidos da vez. Se não fosse Ancelotti, muito possivelmente essa dupla não estaria na Copa. Com contrato estendido até o Mundial de 2030, o primeiro treinador estrangeiro que vai para uma Copa com a Seleção Brasileira tem condição de aproveitar agora uma equipe com média de idade de 28,6 anos e deixar João Pedro, por exemplo, para o futuro. Essa média de idade do Brasil subiu, claro, com as chegadas na reta final de Neymar (34 anos) e Weverton (38).

Não sabemos ainda se o craque santista será titular, mas a parte física será um ponto alto deste Mundial, que promete ser quente e festivo, o que favorece o Brasil e os demais países da América. A Europa só triunfou uma vez em Copas disputadas no continente americano: foi com a Alemanha, aqui no Brasil, em 2014. Tomando como base a experiência nos Estados Unidos em 1994 e nas Copas do México em 1970 e 1986, a vida dos europeus, sobretudo com o calor, ficará um pouco mais complicada. Imagine a Escócia, por exemplo, enfrentando o Brasil em Miami no verão. Mesmo com parada para hidratação, eles sentirão bem mais o clima quente. Na Flórida, assim como em outros estados norte-americanos, há uma grande presença de brasileiros. Além dos moradores locais, muita gente viajará daqui para esta Copa em um país que não está tão longe, tem muitas atrações e que não impõe tantas limitações quanto a Rússia e o Qatar. Podemos dizer sem medo de errar que o Brasil jogará em casa em praticamente todas as partidas, a menos que enfrente novamente a seleção estadunidense (em 1994, o duelo foi ainda no feriado de 4 de julho) ou o México, que também possui uma população numerosa nos Estados Unidos.

Em termos de resultados e também de desempenho, acho que até aqui Ancelotti fez um trabalho apenas regular à frente da seleção. Não concordei com algumas de suas escolhas na lista de 26 jogadores, em especial nas laterais. Eu também levaria Fábio, do Fluminense, por exemplo, pelo menos como terceiro goleiro. Mas eu aprovei a convocação de Neymar, que era a grande questão da Seleção (ainda mais depois das lesões de Estêvão e Rodrygo). Vamos ver a habilidade do técnico italiano que ostenta a chamada "liderança tranquila", um domínio silencioso do vestiário. Creio que a ida de Neymar para mais um Mundial tem muito a ver com os pedidos dos demais jogadores da seleção. O vestiário vinha clamando, até de forma pública, pelo maior astro nacional no grupo. A festa vista em vários lugares do país (inclusive no Museu do Amanhã) no momento quem que o nome Neymar foi anunciado aponta mesmo para um grande acerto de Ancelotti. Se ele perdesse a Copa sem o mais amado e midiático de nossos atletas, ia ser cobrado por isso. Ficaríamos sempre com a dúvida sobre como teria sido se Neymar estivesse lá. Agora, ele vai estar no grupo e deve liderá-lo, com a camisa 10 mítica inclusive, mesmo que fique no banco de reservas.

O Brasil ficou com mais cara de Brasil agora para a Copa. O sorriso e a confiança do torcedor brasileiro ganharam mais força. O clima de Mundial que já toma conta das ruas e de todos os estabelecimentos só vai aumentar. O técnico e o sistema defensivo até podem ser italianos, mas do meio para a frente a seleção brasileira tem tudo para alegrar seus milhões de fãs.

Convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo:

GOLEIROS

LATERAIS

ZAGUEIROS

MEIO-CAMPISTAS

ATACANTES

Programação da Seleção Brasileira:

Os jogadores se apresentam à comissão técnica para o início dos treinos daqui uma semana, na Granja Comary, em Teresópolis.

As exceções são os zagueiros Marquinhos e Gabriel Magalhães e o atacante Martinelli, que disputam no próximo sábado (30) a final da Champions League, entre PSG e Arsenal, na cidade de Budapeste. Eles se juntam ao grupo já nos Estados Unidos.

A Seleção passará uma semana no país e fecha a preparação no domingo (31), quando enfrenta o Panamá, no Maracanã, no amistoso de despedida da torcida.

O embarque para a Copa acontece no dia seguinte, no período da tarde.

Já em solo americano, o Brasil terá Nova Jersey como base e fará um último jogo antes da estreia na Copa. Enfrenta o Egito, dia 6, em Cleveland.

Cabeça de chave do Grupo C, o Brasil encara Marrocos (dia 13, em Nova Jersey), Haiti (dia 19, na Filadélfia) e Escócia (dia 24, em Miami).


Próximos jogos da Seleção Brasileira: