O silêncio pode ser ensurdecedor para uma atleta de alto rendimento. Para Suzane Pires, meio-campista das Sereias da Vila, esse silêncio durou quase mil dias. Não foi uma pausa planejada para descanso, mas um hiato forçado por circunstâncias que testariam a sanidade de qualquer profissional. Entre uma lesão grave de LCA (ligamento cruzado anterior), uma mudança para Portugal e a descoberta da maternidade, Suzane viu o sonho do futebol escorrer pelas mãos quando as portas se fecharam no momento em que ela mais precisava de apoio.
Neste Dia das Mães, Suzane não celebra apenas a vida de seu filho, mas o seu próprio renascimento. De uma jogadora que viu o contrato ser rompido durante a gravidez a uma "leoa" que hoje dita o ritmo no meio-campo do Santos, sua história é um manifesto sobre resiliência e a recusa em aceitar o "fim" imposto por terceiros.
O abandono e o deserto do desemprego
A gravidez de Suzane aconteceu no cenário que é o pesadelo de qualquer atleta: em seu processo de recuperação de uma cirurgia complexa no joelho. Defendendo o Marítimo, em Portugal, ela esperava acolhimento, mas encontrou o descaso.
"Eu não tive o apoio do clube. Foi, basicamente, um rompimento de contrato. Fiquei em casa, desempregada, enquanto meu marido jogava. Não tive suporte de salário e nem estrutura para continuar treinando. Foi o apoio da família que me segurou", relembra, em entrevista exclusiva à ESPN.
O afastamento não durou apenas os nove meses da gestação. Entre o nascimento e o retorno efetivo, foram quase três anos longe dos gramados profissionais. Durante esse "deserto", Suzane confessa que evitava assistir a jogos de futebol feminino. A dor de querer estar em campo e a dúvida cruel se o corpo ainda seria capaz de performar eram fantasmas constantes. “Eu ficava muito triste que eu queria estar lá também, mas pensei realmente que eu não iria mais voltar a jogar", revela.
O retorno doloroso: o corpo que reclama
Quando a Ferroviária estendeu a mão para o seu retorno, o choque de realidade foi físico. Após três anos de inatividade profissional, a massa muscular era quase inexistente para os padrões de elite. O entusiasmo do primeiro dia de treino foi freado por um aviso seco do corpo: no primeiro trote em volta do campo, sua panturrilha "abriu".
Foram quatro semanas de fisioterapia intensa apenas para conseguir correr novamente. Suzane mergulhou em uma rotina de treinos de cardio, bicicletas e os temidos "tabatas" para recuperar o tempo perdido. A recompensa veio com a mesma velocidade da sua dedicação: em um mês estava no campo com o grupo e, em três meses, já era titular absoluta.
A transformação: 'Nasceu uma leoa'
A maior barreira, porém, não estava nos músculos, mas no olhar dos outros. Suzane sentia o peso do julgamento externo: será que ela volta a ser quem era? Será que o investimento vale a pena?
"Encontrei muita gente que duvidou. Até quando fui para a Ferroviária, ouvia comentários de que era uma 'contratação errada'. Mas eu digo com convicção: hoje sou melhor do que antes. Junto com o meu filho, nasceu uma mãe. A gente ganha uma garra diferente, vira uma leoa. Voltei diferente, sim, mas para muito melhor", afirma.
Hoje, no Santos, ela celebra a mudança de mentalidade que começa a florescer nos clubes brasileiros. Ao acompanhar a gestação de Ketlen Wiggers, maior artilheira da história do clube, Suzane viu o oposto do que viveu em Portugal: suporte médico, respeito ao tempo de retorno e acolhimento institucional. Para ela, ver essa evolução é a prova de que ser mãe e jogadora profissional não deve ser um ato de heroísmo solitário, mas um direito garantido.
O legado: para além das quatro linhas
Para quem frequenta a Vila Belmiro, a presença do filho de Suzane já faz parte do espetáculo. Ele entra em campo com a mãe em todos os jogos, conhece cada jogadora pelo nome e já decidiu seu futuro: depois de uma breve experiência como goleiro (seguindo os passos do pai), um gol marcado no treino o convenceu de que seu lugar é no ataque.
A rotina de Suzane é o que ela chama de "correria prazerosa". Enquanto as companheiras usam o pós-treino para o descanso regenerativo, ela assume o papel de mãe, preparando lanches e buscando o filho na escola. Um equilíbrio só possível graças à rede de apoio formada pelo marido e pelos pais.
O maior troféu de Suzane, no entanto, é a lição que ela deixa para o pequeno e para todas as mulheres que ouvem que seus sonhos acabaram após a maternidade. É a frase que ela faz questão de repetir todos os dias para o filho:
"Nunca deixe ninguém te dizer que você não é capaz."
Neste Dia das Mães, Suzane Pires olha para o passado de incertezas e para o presente de protagonismo com a certeza de que determinação venceu o descrédito. Ela não apenas voltou; ela se tornou gigante.
