Em meio a um furacão de emoções e adrenalina em Anfield, a expectativa eletrizante dos torcedores do Liverpool energizava o estádio, mas Alexander-Arnold estava calmo.
"Não tire os olhos da bola, não perca nada."
Contra toda a lógica, o Liverpool havia tirado a vantagem de três gols que o Barcelona conseguira no Camp Nou. Aos 33 minutos do segundo tempo, com o placar agregado em 3 a 3, o árbitro apontava escanteio para o Liverpool. Alexander-Arnold olhou para cima, colocou a bola no quarto de círculo e chamou Shaqiri para cobrar. Ele abaixou a cabeça e deixou espaço para seu companheiro, mas notou que os jogadores do Barcelona estavam desatentos. Ele girou em direção à bola e encontrou Divock Origi dentro da área, livre. O passe de Arnold deu ao Liverpool a chance de vencer a Europa, fato que se concretizou neste sábado, contra o Tottenham.
Alexander-Arnold, que completou 20 anos em outubro é o jogador mais jovem a disputar duas finais de Champions League consecutivas - ele estava na derrota para o Real Madrid, em Kiev, e esteve em campo neste sábado, na vitória contra o Tottenham - passeia pelo Waterfront de Liverpool enquanto se lembra do momento mais icônico de sua carreira até hoje.
Jurgen Klopp, treinador do Liverpool, descreveu o momento como "genial". Alexander-Arnold tem uma visão mais simplista. Para ele, tudo aconteceu por conta do condicionamento.
"Eu sempre tento estar um passo à frente dos meus oponentes, porque é assim que você tira o melhor de si e do melhor deles", ele disse à ESPN. "Eu trabalhei nisso desde que comecei na base, mas é extremamente difícil mostrar sempre no nível que jogamos hoje. Você está competindo contra os principais times, que estão muito bem preparados e a chance de pegá-los desprevenido é pequena."
"Naquela fração de segundo contra o Barça, percebi a oportunidade e aproveitei."
Enquanto "The Trent" - uma jogada nascida de inteligência pura e eternizada na memória do Anfield - foi transportado para parques, ruas e playgrounds em todo o mundo, Alexander-Arnold simplesmente trata o lance como "trabalho feito".
"Eu não pensei sobre isso além do que significou para o jogo em si e para o clube", diz ele. "É difícil sentar e refletir sobre momentos individuais ou as grandes vitórias em que você esteve envolvido. Para nós, é apenas mais uma boa performance, um bom jogo - nada mais, nada menos, porque futebol é sobre resultados. Nosso pensamento é 'Aquele está feito, acabou, precisamos nos concentrar no próximo desafio', porque há sempre outro jogo ou objetivo ao virar da esquina.
"Quer tenha sido um gol histórico ou não, o principal foi mostrarmos que somos muito bons. Queremos garantir que todos terão respeito pelo Liverpool."
Em janeiro, quando Alexander-Arnold assinou um novo contrato de cinco anos com o clube, Klopp o descreveu como "um dos profissionais mais implacáveis que eu já conheci quando o assunto é concentração em melhorar a cada dia". Ele não parou por aí: "Eu notei que a torcida ainda não tem uma música para ele, então talvez isso seja algo que eles possam trabalhar. Porque ele merece uma!
"Como jogador do Liverpool, ele é a personificação do sentimento de 'nunca vamos parar.'"
"NÓS SOMOS UM TIME DE PRIMEIRA LINHA e não deveríamos ter medo de falar isso."
Depois de fazer 97 pontos no campeonato nacional mais difícil do mundo e mesmo assim não garantir o título, o Liverpool pode conquistar seu sexto título europeu no sábado, assim como teve a oportunidade de fazê-lo em Kiev em maio do ano passado. Ao longo de um período de duas horas e meia, que começa no CT do clube, em Melwood, fica claro que Alexander-Arnold não sente mais a dor daquela derrota para o Real Madrid. Empoleirado no telhado do Bar Dockleaf, com a Catedral de Liverpool dominando a vista à sua esquerda, ele explica por quê.
"Sendo honesto, acreditei que teria a oportunidade de fazer isso de novo", diz ele. "Chegou muito rápido, mas eu nunca duvidei que chegaria. Não havia nada indicando que seria minha única chance. Não chegamos na final por sorte, nós merecemos estar aqui.
"Nós merecemos isso. Eu pensei 'é aqui que o Liverpool deve estar' e eu estava convencido de que seria como uma escalada, só para cima."
CONSIDERADO POR MUITOS o melhor lateral-direito do mundo nesta temporada, a moldagem de Alexander-Arnold para a posição foi, como ele diz, "absolutamente terrível".
O diretor da base de Liverpool, Alex Inglethorpe, e Neil Critchley, que era chefe dos Sub-18, deduziram que o volante Alexander-Arnold tinha tudo para se transformar em um lateral explosivo. Eles também sabiam que a posição de lateral-direito poderia ser o caminho mais curto para que ele subisse para o time profissional, mas para que o adolescente chegasse lá, ele precisava melhorar seu temperamento, bem como aprimorar sua resistência física e mental.
Naqueles campos, os treinamentos de Alexander-Arnold não eram muito bem quistos. "Eu odiava", diz ele. "Foram as piores condições de treinamento que eu já passei. Sempre adorei jogar futebol e fazer todas as sessões, mas nesses três meses eu odiava.
"Eu sabia que viriam pra cima de mim no treino, que os melhores jogadores viriam, sem parar, na minha direção. Na época, eu cheguei a pensar que não era bom o suficiente. Eu já chegava no treino sabendo que não me sairia bem e voltava aborrecido para casa. Isso aconteceu por muito tempo. Eu não estava desenvolvendo meu potencial porque minha cabeça não estava ce Eu estava de mau humor o tempo todo e não era saudável. Mas funcionou - e muito bem.
"É uma prova de como Alex e Critch são bons, especialmente porque eles entenderam o que eu precisava. Eles sabiam que tinham que trabalhar comigo para que eu não 'quebrasse' em jogos importantes. Se eu pudesse assistir aos meus treinos antigos, eu veria como reagi às derrotas e ficaria envergonhado. Eu chutava bolas para longe, gritava com as pessoas ... Eles me ensinaram a como tornar isso algo positivo. Eles me ensinaram que eu jogava melhor quando tornava o duelo entre o ponta e eu pessoal. Eu dizia para mim mesmo: 'ele não vai me vencer.'
"Era uma questão de orgulho não deixar o adversário me driblar."
Uma ilustração disso veio na temporada passada: vitória por 3 a 0 sobre o Man City nas quartas-de-final da Champions League, em Anfield. Uma partida que Alexander-Arnold destacou como "a verdadeira faísca" para sua ascensão meteórica.
Guardiola assumiu que o jovem lateral era a fraqueza na defesa do Liverpool e colocou o rápido Leroy Sane contra ele. Os visitantes canalizaram a maior parte das suas jogadas de ataque através do alemão, mas Alexander-Arnold venceu praticamente todos os duelos. "Eles não criaram o alto número de chances que costumam fazer porque defendemos muito bem", analisou Klopp. "Trent teve um jogo fantástico."
AOS 6 ANOS DE IDADE, já parte da base do Liverpool, Alexander-Arnold assistiu a magia de Istambul - "uma noite que ninguém vai esquecer e que mostrou o caráter de Liverpool, como equipe e como cidade" - se desdobrar no casa de família, a dois minutos de Melwood. Ele se lembra da celebração depois da partida, que os Reds acabaram vencendo nos pênaltis.
Fica claro que Alexander-Arnold não está brilhando sozinho. Todos ao seu redor têm uma parte disso. Sua mãe, Diane, tem sido uma "extensão da comissão técnica do Liverpool", enquanto seu pai, Michael, sempre prega educação, preparação e estratégia. Tyler, o irmão quatro anos mais velho que ele, é o seu técnico em casa. Marcell, três anos mais novo que ele, era seu companheiro de quarto na casa de West Derby, da qual só saíram quando ele tinha 17 anos.
"Eu não seria a pessoa e o jogador que sou hoje sem eles", diz Alexander-Arnold. "Eu estaria a um milhão de milhas de distância disso. Eles têm sido tão encorajadores e influentes - e isto não é exagero - eles sacrificaram tudo por mim. Eles sacrificaram seus sonhos para que pudessem me ajudar a virar o que virei. Eles estiveram lá para mim quando os tempos foram difíceis, quando eu estive triste E eles celebraram os momentos mais felizes comigo também.
"Eu nunca quero que isso mude. Eu amo voltar para casa e poder ser apenas o Trent."
Alexander-Arnold também pensa na "sua gente". Aqueles que, como ele, se dedicam ao Liverpool. Ele tem muito orgulho de ser de onde é e e gosta de representar sua cidade no palco mundial. "Existe algo diferente sobre esse lugar", diz ele. "As pessoas que não são de Liverpool provavelmente pensam que estamos exagerando, mas isso é porque somos realmente apaixonados por tudo daqui. Estamos unidos em questões importantes e lutamos pelo que acreditamos com tudo o que temos."
Ele tem um vínculo forte com aqueles que vivem aos redores de Anfield, sabendo que eles têm o poder para para erguer o Liverpool e agir como criptonita para alguns dos melhores jogadores do mundo.
"Sem os torcedores, o que fizemos contra o Barcelona teria sido impossível", disse Alexander-Arnold. "A performance foi um agradecimento a eles, para mostrar a eles que são especiais, que eles fazem a diferença. Agradecemos a eles, que abrem mão do seu tempo e dinheiro para nos apoiar em todo o mundo".
